(III)
E porque nem tudo se desenvolve com o passo que se pretende, Beatriz, cansada mas linda como sempre, tirou férias. Ausentou-se, mas não esqueceu; não está, mas há-de voltar!
Era uma vez a história de Beatriz, que apaixona, que seduz com o travo de doçura que traz na boca, que fascina com a simplicidade do gesto que faz em tom de cumprimento. Loucos são os pensamentos de uma pobre mente cada vez mais só, cujo principal reduto é a paixão inexplicavelmente sentida por alguém que conheceu em cinco minutos. Loucas são as noites de solidão, que para deixarem de o ser reclamam a presença de Margarida, como sucedera no fim-de-semana.
Aquela noite, a última noite com Margarida será difícil de olvidar. Não pelo prazer que possa ter causado, prazer que é indiscutível, mas pela desilusão, pelo triste sentimento de quem perde um jogo. O jogo perdido não é mais do que a desabituação do corpo a um determinado odor, a um determinado toque. Um toque que, por ser tão bom, provoca uma dor difícil de verbalizar, a dor do arrependimento e da consciência de que cada recaída é a negação, o incumprimento da promessa feita a pés juntos, com a mala na mão e as chaves caídas na soleira da porta. No entanto, é de duvidar seriamente que haja uma próxima vez. Margarida está guardada a sete chaves no baú que não se pretende abrir e espera-se que de lá não saia.
- Foi a última vez, podes estar certa... – foi com estas palavras que Margarida ficou, sozinha com as suas frias lágrimas, enquanto lhe virei costas com a mala numa mão e a chave do carro na outra.
O regresso a casa, esta casa que partilho comigo mesmo, foi mais reconfortante do que o esperado. Na verdade, depois de um fim-de-semana ruinoso, só aqui poderia ter a tranquilidade para preparar a próxima semana. Penso em Beatriz, que me assola a mente em momentos cada vez menos espaçados. Penso também na mulher, genericamente, provo sensações antagónicas e não chego a conclusão alguma. Pergunto-me se algum dia haverá alguém a concluir algo de superior interesse ao do que vem nos livros de aprendizagem rápida, daqueles que debitam conselhos ordenados e transmitidos como se fossem universais. Quanto a isto, não há muito que pensar, não caberá num livro o estudo sobre a essência feminina, não por ser feminina – não se pretende enveredar por uma óptica machista e redutora do assunto – mas sim por ser humana. Tão humana que acaba, como quase sempre, por se tornar contraditória, incoerente, inexplicada até hoje. É nisto que penso enquanto desfaço a mala, o que em rigor é mesmo desfazer, dado que com a pressa ficou mal fechada e agora só parece querer ser aberta com a separação de algumas das suas peças fundamentais. Entre Beatriz e a mala, a mala ganhou, definitivamente! Não consigo pensar noutra coisa senão atirá-la contra a parede, para que se abra rapidamente, ou então atirá-la da janela, se me achar possuidor da perícia suficiente para acertar no caixote do lixo. Há situações na vida que deviam ser resolvidas desta forma: ou abres ou vais janela fora, até onde a gravidade te levar.
Não escapará a uma alma mais atenta a agressividade do que conto, projecto na mala o que sinto por Margarida, a vontade de abrir a sua mente à oportunidade para nunca mais me incomodar, ou então mandá-la janela fora. Vontade não falta, mas a lucidez ainda impera e não vou arruinar oitenta euros por algo que não vale oitenta cêntimos sequer. E, coincidência ou não, é neste momento de apaziguamento que a mala finalmente cede, revelando o seu conteúdo: dois pares de calças praticamente iguais, três camisas e um pulôver que já não sei onde comprei. Se o objectivo aqui fosse fazer um esforço para de cada situação retirar uma lição de vida, aqui estaria uma que poderá ser útil a qualquer alma desgovernada: não tentes vencer com a força o que podes vencer com a paciência. É esquisita a sonoridade destas frases, por mais inovadoras que sejam, o seu tom é sempre familiar, como se há alguns séculos alguém se tivesse dado ao trabalho de inventariar todas as lições possíveis de vida e as tivesse escrito sempre da mesma forma.
Estranhas sensações que me invadem, mais estranhos ainda estes pensamentos soltos, desconexos e sem qualquer sentido. A minha vontade era ligar já a Beatriz, mas esperarei pela manhã, ou até mesmo pelo fim da tarde. A minha vontade era encontrar-me de imediato com ela, mas serei paciente. A minha vontade era dar-lhe um beijo, um simples beijo, mas não o farei, deixarei que um dia ela me telefone, se faça convidada para jantar e aí utilizarei todo aquele pouco que sei... oxalá seja o suficiente! Certamente, se estivesse à janela ter-me-ia visto chegar e pensaria o mesmo, atiraria o telemóvel para longe para não me ligar, fugiria da janela para não ser apanhada a espreitar o vizinho que chega a casa num domingo, pela madrugada. É o jogo da sedução, o mais antigo que conheço, com mais adeptos que o próprio futebol. As notícias nos telejornais louvam os estádios cheios, os banhos de multidão nas recepções às equipas do seu coração e negligenciam que o maior jogo, o mais disputado, o jogo no qual o empate não é meia vitória, mas sim uma derrota completa, esse jogo tem biliões de praticantes em todo o mundo, move montanhas segundo alguns e aguça o pensamento estratégico de qualquer um. É do jogo da sedução que se deveria falar nos telejornais, nos seus sucessos e infortúnios, na sua prática mesmo sem patrocinadores ou transmissões televisivas. Não se joga com uma bola ou com chuteiras, treina-se pacientemente às escondidas e pratica-se no melhor lugar que se encontrar, com uma boa carta de vinhos, ou com uma boa música. É este o jogo da vida, a sedução muitas vezes pela própria sedução, a arte de dar sem revelar o quê e de dizer tudo sem dar a perceber. Se Beatriz soubesse de tudo isto estaria certamente perdido o jogo e se eu soubesse tudo o que ela pensa não seria outro o resultado. Poder-se-ia então simplificar o jogo, ou até mesmo esquecê-lo e passar à frente, mas é na sedução que tudo se decide. Como numa criança, em que muitos dos ensinamentos transmitidos começam desde logo a moldar a sua conduta, neste jogo esquecer os detalhes é condenar ao fracasso o deu desfecho.
São seis da manhã e o telefone toca, o que me faz acordar num tremendo sobressalto. Demoro a atender porque não há identificação de quem está do outro lado. No entanto, quando penso na hipótese de ser Margarida ao telefone ocorrem-me várias ideias que me indicam que não é ela. Por um lado, a frieza com que disse que havia sido a última vez foi tal que não teria coragem de me telefonar, pelo menos quando só passaram escassas horas. Por outro lado, a esta hora estará a dar atenção à voz familiar que ouvi enquanto tomava café com Beatriz, antes de ir para o norte. Atendo finalmente e, para minha surpresa, é uma senhora cujos cabelos brancos quase consigo ver, só de ouvir a sua voz trémula. Fala-me em francês, num sotaque que me dificulta a tradução. Ao que parece chama-me de filho, mas ora essa, a minha mãe de francesa nada tem, que se saiba, e percebeu quando eu tinha dezasseis anos que não me pode ligar antes das oito da manhã. Mãe há só uma e esta não é certamente a minha! Numa rouquidão justificada por um certo vinho tinto, em grande parte desperdiçado no soalho, consegui dizer qualquer coisa em francês: “Mon nom n'est pas Pierre, tu a marqué le mauvais numéro. Excusez-moi!”.
Com tamanho incómodo, nem com quinze minutos a tentar voltar a adormecer o consegui fazer. Foi então que decidi levantar-me e ligar o computador. Na caixa de correio havia apenas uma mensagem da empresa, uma reunião qualquer que aponto na agenda sem sequer pensar. Sem emails para ler ou enviar, sem criatividade para ocupar o tempo liguei as colunas e escolhi uma música francesa. A senhora acordou-me quase de madrugada, mas pelo menos o seu francês incitou-me a ouvir “C’Était Ici”. É com esta música e outras semelhantes que o meu tempo passa até ir tomar banho, preparar-me para um dia no escritório, em que não estaria concentrado, não fosse a capacidade que treinei para me distanciar cada vez mais de uma vida pessoal algo agitada.
O pequeno-almoço é tomado enquanto converso com a senhora do café, que se lamenta por não ter lá ido durante todo o fim-de-semana e não a ter avisado. A sua preocupação maternal, que tantas vezes me soube bem ouvir, hoje causa-me náuseas, mas não lho revelo. Destroçaria o seu coração e seria de uma injustiça atroz, prefiro acenar aleatoriamente com a cabeça enquanto ela fala. Aceno em sinal de concordância, pois se fosse de discórdia teria que me justificar e demoraria mais do que os dez minutos que tinha planeado para esta refeição. Agora aceno não só com a cabeça, mas também com um leve cerrar dos olhos, como quem reflecte sobre o que ouve, como quem absorverá mais tarde, no silêncio da noite, estas lições de uma alma que teve uma vida difícil e que me trata como um filho.
Passando em frente a manhã, mais uma como tantas outras, falemos do que aqui nos traz. Tudo estava calmo, preparava-me já para almoçar com três colegas que haviam passado a manhã comigo, quando o telemóvel começou a tocar. Desta vez, como mais cinco ao longo da manhã, a proveniência da chamada estava identificada. E agora era o nome que tanto aguardava, Beatriz!
- Frank, Frank... Tomei café consigo e esteve um fim-de-semana inteiro sem sequer telefonar, é imperdoável! – disse aquela voz morena em tom de brincadeira, deixando ouvir um riso suave. Podia estar a insultar-me que o resultado seria o mesmo, reagiria da mesma forma, com um simples “Boa tarde Beatriz, como está?”.
- Não tive oportunidade de lhe ligar, do fim-de-semana de descanso, só tive o fim-de-semana. Mas diga-me lá como foi o seu! – A frieza das palavras não reflecte, de todo, a satisfação com que falo.
- Tive um fim-de-semana perfeitamente normal Frank, mas se quiser conto-lhe ao almoço...
- Beatriz, se não se importar conta-me ao jantar, ou então amanhã ao almoço. – respondi eu, sem nenhum compromisso para desmarcar, mas com uma certa indiferença que me espantou.
- Frank, almoçaremos juntos amanhã então. À partida não haverá problema, mas ligo-lhe à noite a confirmar. - a conversa durou uns dois minutos mais e terminou muito formalmente.
A tarde logo se foi e chegou a noite em seu lugar. Com ela trouxe mais um telefonema de Beatriz... O almoço será no dia seguinte!
Muito bom, muito bom mesmo!
ResponderEliminarNão te reconhecia tais dotes artísticos!
Fiquei muito bem impressionado ao ler esta saga de três episódios. Denoto um bom espírito criativo e uma boa maturidade na escrita.
Congratulo-te mais uma vez e, desta me despeço, ansioso pela publicação da sequência desta estória romântica com Beatriz.