segunda-feira, 31 de maio de 2010

Conhecer Beatriz (III)

(III)


E porque nem tudo se desenvolve com o passo que se pretende, Beatriz, cansada mas linda como sempre, tirou férias. Ausentou-se, mas não esqueceu; não está, mas há-de voltar!

Era uma vez a história de Beatriz, que apaixona, que seduz com o travo de doçura que traz na boca, que fascina com a simplicidade do gesto que faz em tom de cumprimento. Loucos são os pensamentos de uma pobre mente cada vez mais só, cujo principal reduto é a paixão inexplicavelmente sentida por alguém que conheceu em cinco minutos. Loucas são as noites de solidão, que para deixarem de o ser reclamam a presença de Margarida, como sucedera no fim-de-semana.

Aquela noite, a última noite com Margarida será difícil de olvidar. Não pelo prazer que possa ter causado, prazer que é indiscutível, mas pela desilusão, pelo triste sentimento de quem perde um jogo. O jogo perdido não é mais do que a desabituação do corpo a um determinado odor, a um determinado toque. Um toque que, por ser tão bom, provoca uma dor difícil de verbalizar, a dor do arrependimento e da consciência de que cada recaída é a negação, o incumprimento da promessa feita a pés juntos, com a mala na mão e as chaves caídas na soleira da porta. No entanto, é de duvidar seriamente que haja uma próxima vez. Margarida está guardada a sete chaves no baú que não se pretende abrir e espera-se que de lá não saia.

- Foi a última vez, podes estar certa... – foi com estas palavras que Margarida ficou, sozinha com as suas frias lágrimas, enquanto lhe virei costas com a mala numa mão e a chave do carro na outra.

O regresso a casa, esta casa que partilho comigo mesmo, foi mais reconfortante do que o esperado. Na verdade, depois de um fim-de-semana ruinoso, só aqui poderia ter a tranquilidade para preparar a próxima semana. Penso em Beatriz, que me assola a mente em momentos cada vez menos espaçados. Penso também na mulher, genericamente, provo sensações antagónicas e não chego a conclusão alguma. Pergunto-me se algum dia haverá alguém a concluir algo de superior interesse ao do que vem nos livros de aprendizagem rápida, daqueles que debitam conselhos ordenados e transmitidos como se fossem universais. Quanto a isto, não há muito que pensar, não caberá num livro o estudo sobre a essência feminina, não por ser feminina – não se pretende enveredar por uma óptica machista e redutora do assunto – mas sim por ser humana. Tão humana que acaba, como quase sempre, por se tornar contraditória, incoerente, inexplicada até hoje. É nisto que penso enquanto desfaço a mala, o que em rigor é mesmo desfazer, dado que com a pressa ficou mal fechada e agora só parece querer ser aberta com a separação de algumas das suas peças fundamentais. Entre Beatriz e a mala, a mala ganhou, definitivamente! Não consigo pensar noutra coisa senão atirá-la contra a parede, para que se abra rapidamente, ou então atirá-la da janela, se me achar possuidor da perícia suficiente para acertar no caixote do lixo. Há situações na vida que deviam ser resolvidas desta forma: ou abres ou vais janela fora, até onde a gravidade te levar.

Não escapará a uma alma mais atenta a agressividade do que conto, projecto na mala o que sinto por Margarida, a vontade de abrir a sua mente à oportunidade para nunca mais me incomodar, ou então mandá-la janela fora. Vontade não falta, mas a lucidez ainda impera e não vou arruinar oitenta euros por algo que não vale oitenta cêntimos sequer. E, coincidência ou não, é neste momento de apaziguamento que a mala finalmente cede, revelando o seu conteúdo: dois pares de calças praticamente iguais, três camisas e um pulôver que já não sei onde comprei. Se o objectivo aqui fosse fazer um esforço para de cada situação retirar uma lição de vida, aqui estaria uma que poderá ser útil a qualquer alma desgovernada: não tentes vencer com a força o que podes vencer com a paciência. É esquisita a sonoridade destas frases, por mais inovadoras que sejam, o seu tom é sempre familiar, como se há alguns séculos alguém se tivesse dado ao trabalho de inventariar todas as lições possíveis de vida e as tivesse escrito sempre da mesma forma.

Estranhas sensações que me invadem, mais estranhos ainda estes pensamentos soltos, desconexos e sem qualquer sentido. A minha vontade era ligar já a Beatriz, mas esperarei pela manhã, ou até mesmo pelo fim da tarde. A minha vontade era encontrar-me de imediato com ela, mas serei paciente. A minha vontade era dar-lhe um beijo, um simples beijo, mas não o farei, deixarei que um dia ela me telefone, se faça convidada para jantar e aí utilizarei todo aquele pouco que sei... oxalá seja o suficiente! Certamente, se estivesse à janela ter-me-ia visto chegar e pensaria o mesmo, atiraria o telemóvel para longe para não me ligar, fugiria da janela para não ser apanhada a espreitar o vizinho que chega a casa num domingo, pela madrugada. É o jogo da sedução, o mais antigo que conheço, com mais adeptos que o próprio futebol. As notícias nos telejornais louvam os estádios cheios, os banhos de multidão nas recepções às equipas do seu coração e negligenciam que o maior jogo, o mais disputado, o jogo no qual o empate não é meia vitória, mas sim uma derrota completa, esse jogo tem biliões de praticantes em todo o mundo, move montanhas segundo alguns e aguça o pensamento estratégico de qualquer um. É do jogo da sedução que se deveria falar nos telejornais, nos seus sucessos e infortúnios, na sua prática mesmo sem patrocinadores ou transmissões televisivas. Não se joga com uma bola ou com chuteiras, treina-se pacientemente às escondidas e pratica-se no melhor lugar que se encontrar, com uma boa carta de vinhos, ou com uma boa música. É este o jogo da vida, a sedução muitas vezes pela própria sedução, a arte de dar sem revelar o quê e de dizer tudo sem dar a perceber. Se Beatriz soubesse de tudo isto estaria certamente perdido o jogo e se eu soubesse tudo o que ela pensa não seria outro o resultado. Poder-se-ia então simplificar o jogo, ou até mesmo esquecê-lo e passar à frente, mas é na sedução que tudo se decide. Como numa criança, em que muitos dos ensinamentos transmitidos começam desde logo a moldar a sua conduta, neste jogo esquecer os detalhes é condenar ao fracasso o deu desfecho.

São seis da manhã e o telefone toca, o que me faz acordar num tremendo sobressalto. Demoro a atender porque não há identificação de quem está do outro lado. No entanto, quando penso na hipótese de ser Margarida ao telefone ocorrem-me várias ideias que me indicam que não é ela. Por um lado, a frieza com que disse que havia sido a última vez foi tal que não teria coragem de me telefonar, pelo menos quando só passaram escassas horas. Por outro lado, a esta hora estará a dar atenção à voz familiar que ouvi enquanto tomava café com Beatriz, antes de ir para o norte. Atendo finalmente e, para minha surpresa, é uma senhora cujos cabelos brancos quase consigo ver, só de ouvir a sua voz trémula. Fala-me em francês, num sotaque que me dificulta a tradução. Ao que parece chama-me de filho, mas ora essa, a minha mãe de francesa nada tem, que se saiba, e percebeu quando eu tinha dezasseis anos que não me pode ligar antes das oito da manhã. Mãe há só uma e esta não é certamente a minha! Numa rouquidão justificada por um certo vinho tinto, em grande parte desperdiçado no soalho, consegui dizer qualquer coisa em francês: “Mon nom n'est pas Pierre, tu a marqué le mauvais numéro. Excusez-moi!”.

Com tamanho incómodo, nem com quinze minutos a tentar voltar a adormecer o consegui fazer. Foi então que decidi levantar-me e ligar o computador. Na caixa de correio havia apenas uma mensagem da empresa, uma reunião qualquer que aponto na agenda sem sequer pensar. Sem emails para ler ou enviar, sem criatividade para ocupar o tempo liguei as colunas e escolhi uma música francesa. A senhora acordou-me quase de madrugada, mas pelo menos o seu francês incitou-me a ouvir “C’Était Ici”. É com esta música e outras semelhantes que o meu tempo passa até ir tomar banho, preparar-me para um dia no escritório, em que não estaria concentrado, não fosse a capacidade que treinei para me distanciar cada vez mais de uma vida pessoal algo agitada.

O pequeno-almoço é tomado enquanto converso com a senhora do café, que se lamenta por não ter lá ido durante todo o fim-de-semana e não a ter avisado. A sua preocupação maternal, que tantas vezes me soube bem ouvir, hoje causa-me náuseas, mas não lho revelo. Destroçaria o seu coração e seria de uma injustiça atroz, prefiro acenar aleatoriamente com a cabeça enquanto ela fala. Aceno em sinal de concordância, pois se fosse de discórdia teria que me justificar e demoraria mais do que os dez minutos que tinha planeado para esta refeição. Agora aceno não só com a cabeça, mas também com um leve cerrar dos olhos, como quem reflecte sobre o que ouve, como quem absorverá mais tarde, no silêncio da noite, estas lições de uma alma que teve uma vida difícil e que me trata como um filho.

Passando em frente a manhã, mais uma como tantas outras, falemos do que aqui nos traz. Tudo estava calmo, preparava-me já para almoçar com três colegas que haviam passado a manhã comigo, quando o telemóvel começou a tocar. Desta vez, como mais cinco ao longo da manhã, a proveniência da chamada estava identificada. E agora era o nome que tanto aguardava, Beatriz!

- Frank, Frank... Tomei café consigo e esteve um fim-de-semana inteiro sem sequer telefonar, é imperdoável! – disse aquela voz morena em tom de brincadeira, deixando ouvir um riso suave. Podia estar a insultar-me que o resultado seria o mesmo, reagiria da mesma forma, com um simples “Boa tarde Beatriz, como está?”.

- Não tive oportunidade de lhe ligar, do fim-de-semana de descanso, só tive o fim-de-semana. Mas diga-me lá como foi o seu! – A frieza das palavras não reflecte, de todo, a satisfação com que falo.

- Tive um fim-de-semana perfeitamente normal Frank, mas se quiser conto-lhe ao almoço...

- Beatriz, se não se importar conta-me ao jantar, ou então amanhã ao almoço. – respondi eu, sem nenhum compromisso para desmarcar, mas com uma certa indiferença que me espantou.

- Frank, almoçaremos juntos amanhã então. À partida não haverá problema, mas ligo-lhe à noite a confirmar. - a conversa durou uns dois minutos mais e terminou muito formalmente.

A tarde logo se foi e chegou a noite em seu lugar. Com ela trouxe mais um telefonema de Beatriz... O almoço será no dia seguinte!

1 comentário:

  1. Muito bom, muito bom mesmo!
    Não te reconhecia tais dotes artísticos!
    Fiquei muito bem impressionado ao ler esta saga de três episódios. Denoto um bom espírito criativo e uma boa maturidade na escrita.

    Congratulo-te mais uma vez e, desta me despeço, ansioso pela publicação da sequência desta estória romântica com Beatriz.

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