(I)
Da janela que dá para as traseiras do prédio, via-se também o parque de estacionamento, onde acabara de parar um carro que nunca tinha sido visto por ali, dois minutos se passaram, e do seu interior saiu, espero não me estar a enganar, a nova vizinha. De cabelos escuros e ondulados, com um charme muito próprio e único, saiu do carro apressada, por causa da chuva miudinha que lhe caía na camisola alaranjada, fina, de Verão, e foi então que, numa atitude preenchida de ironia, me afastei do peitoril da janela e fui a correr para o computador, pouco tempo foi necessário para que toda a vizinhança pudesse ouvir o meu querido Frank Sinatra a cantar com toda a sua força e paixão I’m singing in the rain… Surpreendida pela cantoria, olhou para cima, como quem procura o último jogador das escondidas, e viu-me, então, rindo tranquilamente no peitoril da janela do terceiro esquerdo, sorriu! com as mãos agarrando a carteira sobre a cabeça, nada mais. Com isto, não esperando melhor reacção do que a quebra da primeira barreira do que trata a relações humanas, o primeiro contacto, passar de mero desconhecido a alguém que chama a atenção, ou que recorda alguma ocasião, por mais simples e corriqueira que possa ser considerada. Continuou a correr com cuidado para não escorregar no pavimento molhado, mas em bicos de pés, e a sua imagem parecia a de uma menina, que brincava no jardim e agora fugia do sistema de rega que se havia ligado sem prévio aviso. São dez da noite e ainda nem sequer jantei, perdi-me, sentado no sofá, nos meus pensamentos e a nova vizinha ocupou-me algum desse tempo, questiono-me sobre qual será a entrada e o número da porta que lhe protege o apartamento do mundo exterior, de todos os estranhos que por aí andam, à solta, nas suas vidas, naquilo a que se chama sociedade. Enfim, o estômago fez-me reencontrar, desta vez não há como enganá-lo e adiar o jantar, vou ter mesmo que me vestir sem grandes cuidados e correr para o café que há no rés-do-chão do prédio. Entrei no elevador, apertando ainda o último botão das calças, por sorte não fui surpreendido pela senhora do apartamento que faz paredes meias com o meu, com os seus oitenta e poucos anos assustar-se-ia com tal imagem, rogaria pragas à juventude dos tempos que correm e pediria perdão ao seu Senhor. Enfim, o elevador estava diferente, havia ali um aroma novo, suave, doce, não quis que me ocorresse aquilo que ocorreu, não queria pensar sequer no que estava a pensar, queria manter a putativa nova vizinha fora do meu pensamento, mas não o consegui evitar e, ao olhar-me no espelho do ascensor, deparei-me com um brilho incandescente nos olhos. Saí do prédio, olhando para os lados, à procura de novidades, mas nada, ninguém andava por ali, muito menos quem eu queria. O café fica dois passos ao lado da entrada para os apartamentos, entrei e fui recebido pelo sorriso da empregada, encoberta pelo balcão de metro e meio, mas foi, com uma tristeza que não consegui perceber na altura, mas que agora constato dever-se ao zelo que tem pelo meu bem-estar, que me disse já não haver o prato do dia, “Peco-lhe desculpa meu querido, não sabia que cá vinha hoje matar a fome, senão tinha-lhe guardado um pratinho de comida, mas preparo-lhe o que quiser num instantinho.”, disse, quase com carinho de mãe, ao que respondi que não se preocupasse, que preparasse um prego no prato reforçado e que estaria o assunto da melhor forma resolvido. Em quinze minutos veio o bendito prego, noutros quinze se foi. Corri para casa, como se tivesse montanhas de trabalho à espera, mas não, queria voltar para casa e esperar, esperar que aquela morena fizesse soar a campainha do meu modesto t zero dúplex e me atacasse, aos beijos, num acto louco e irreflectido, que tantos homens por aí fora fantasiam, mas a minha racionalidade chamava-me de trinta em trinta segundos à realidade. A porta do elevador abriu-se já no terceiro andar, sinceramente não sei como vim cá ter, não me lembro do percurso que fiz desde a porta, lá em baixo, talvez seja tudo uma questão de automatização deste tipo de procedimentos corriqueiros, afinal cerca de quatro quintos das decisões que tomamos são instintivas. Após quatro rotações completas da chave da porta de segurança e após sentir, de novo, o perfume de há pouco, ouvi um barulho estranho ao empurrar a porta para dentro, como se um papel se arrastasse no chão e eis o meu espanto quando olhei para baixo e vi uma folha meia dobrada por trás da porta. Baixei-me para o alcançar, na ânsia de descobrir o seu remetente.
Nem posso acreditar no que vejo! Beatriz Castro Lima acabara de estar à minha porta, acabara de tocar a minha campainha, e eu acabara de perder a oportunidade de ser atacado pela nova vizinha. O bilhete era curto e dizia: “Caro Frank, após analisar a disposição dos apartamentos e das respectivas janelas, penso que seja este o seu apartamento. Queria agradecer-lhe a hospitalidade e deixar em aberto a possibilidade de um novo encontro, acabei de me mudar para o segundo direito e espero poder reencontrá-lo. Até uma próxima vez, Beatriz Castro Lima”. Virei a folha e verifiquei que da página de trás constava o seu número de telemóvel, com uma nota de rodapé, “Não o costumo fazer, mas tenho uma certa paixão pela musica de Sinatra”.
Como seria de esperar, tal como mandam as normas - desculpe-se agora a importação transatlântica do termo - da paquera, não lhe telefonei nessa noite, porém fui para a cama com um sorriso que há muito não via no espelho, as horas passavam e a fada do sono não me vinha cantar canção alguma para me embalar, por momentos cheguei a pensar que se devesse a não ter feito absolutamente nada durante o dia todo, mas achei a ideia demasiadamente básica e contraditória a achar que o comando da televisão e o teclado do computador poderem ser bem mais cansativos que passar um dia inteiro de enxada na mão. Mas labouras à parte, eis que o sono finalmente chegou e as horas passaram sem que desse conta.
Daqui a três dias parto para uma pequena casa que tenho no norte do país, à qual, ironicamente, gosto de chamar casa do lago, e digo ironicamente, porque quase não é casa e o lago quase não tem água, mais parece uma pequena poça, se bem que a chamar-lhe poça, só se se tivesse formado durante um dilúvio, dado que tem profundidade suficiente para uma canoa, à qual fiz questão de dar uns retoques depois de a comprar ao filho de um pobre pescador que morrera poucos dias antes e deixara, além da canoa que tanto estimo, nada senão roupas velhas e um pequeno barraco onde guardava ferramentas que usava para trabalhar madeira, ainda fiquei com algumas peças, magnífica arte que tinha o homem, uma arte por explorar e que lhe podia ter enchido mais a algibeira do que os escassos peixes que pescava num riacho ali perto. Três dias faltam para sair desta cidade pequena, em que todos sabem de todos, em que nada passa indiferente aos olhos, nem impune ao julgamento das mentes, que por se acharem menos, são mais maliciosas que quaisquer outras. Digno de rei, seria hoje mesmo, depois do banho matinal e um pequeno almoço à inglesa, telefonar à minha querida Castro Lima e arranjar um motivo minimamente plausível para a enfiar no meu carro e levá-la para a minha humilde casa no lago, ou para parecer melhor, que isto no que toca a mulheres nunca se pode mostrar fraqueza em nada, então matérias financeiras muito menos, a minha bela cabana no campo, sim porque mais vale uma cabana avantajada no campo, e campo não falta por ali, do que um casebre desgraçado ao lado de um lago meio seco, perdido no meio de nenhures.
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