segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Conhecer Beatriz (II)

(II)

 

Para recompensa dos meus pecados, o convite foi indeferido, a voz do outro lado do telefone, suave e melódica, explicou-me apressadamente que havia uma reunião deveras importante, no seu entender, nesse mesmo fim-de-semana, deitando por terra todo e qualquer sonho de índole mais mulherenga, ou até mesmo os mais inocentes e inócuos, que pudesse ter em relação aos próximos dias. Explicou-me, também – a mesma voz, portanto – que teria, apesar do imprevisto e do escasso tempo disponível, todo o gosto em tomar um café breve na minha companhia, antes da minha partida, afinal falava comigo como se me conhecesse há muito mais do que as escassas horas a que realmente se tinha dado conta de que teria ali, na sua nova morada, um vizinho atrevido – adjectivação que penso ser, de todo, errada, mas que perante as minhas últimas atitudes poderá parecer, a olho mais ligeiro e pouco preciso, a mais correcta – e tudo isto sem nunca me ter visto, se não contarmos com aquela espreitadela que deu à minha janela, aquando da pequena brincadeira com a música de Frank.

Ficou marcado para o dia seguinte, mal acabasse de almoçar, perto de casa, por volta da uma, iria ao centro, onde Margarida...

...aliás, Beatriz estaria esperando por mim, na esplanada do café mais conceituado deste lugarejo – de se lhe tirar o chapéu, tão requintado é o seu gosto. O relógio marca duas e dez do dia 7, o mês não me diz, seria demasiada informação trazida no pulso, sou homem de simplicidade. Não sei se o resto do dia tem o necessário interesse para ser aqui descrito, não me parece conveniente falar das reuniões, dos olhares indiscretos das secretárias, dos comentários entre colegas sobre o director, não me parece interessante não falar em Beatriz Castro Lima, não me parece razoável não estar com ela.

Dia 8, o sol nasceu com toda a força que tem, parece propositado, para me contrariar, um acontecimento bastante invulgar nesta altura do ano, um céu tão limpo. O telemóvel toca, mas o número que aparece no monitor não é dos mais agradáveis; por mim, toca e tocará!

A manhã foi relativamente tranquila, os assuntos pendentes estavam resolvidos, do ponto de vista mais sério, mais profissional da minha vida, não há qualquer entrave a um fim-de-semana relaxado, no norte. Bem, o telemóvel insiste em ser atendido, mas já arranjei um motivo para a minha indiferença, estou em plena luta com a mala de viagem, que penso nunca se ter mostrado tão renitente em ser fechada. Enfim, uma mala teimosa, uns e-mails dos quais me lembrei pouco antes de bater a porta de casa, uma lavagem do carro e um almoço digerido a custo, a isto se resumiram as horas que precederam o item principal da agenda para hoje.

O carro voa pelas estradas que me separam do centro, mas voa em vão, porque, se bem me conheço, ao chegar ao local marcado, vou esperar dentro do carro uns longos dez minutos, para perfazer um atraso razoável, próprio de quem só veio porque a boa conduta não aconselha a falta de comparência a este tipo de compromissos – tudo mentira. De facto, seriam longos e dolorosos os dez minutos de espera dentro do carro, aqueles típicos dez minutos, que podiam ser de descompressão caso o estômago não fizesse questão de se embrulhar e desembrulhar ao ritmo dos batimentos cardíacos.

Nunca este café me parecera tão acolhedor, nunca estes sofás se mostraram tão receptivos à minha pessoa como se mostram hoje. No lado oposto à entrada, eis o motivo de tão alvoroçado estômago, linda e tranquila, lendo uma revista que não reconheço de onde estou. Beatriz! Tão bela quanto o nome que lhe deram, nada mais se podia ter pedido aos seus progenitores, que, a julgar pela filha, ou são ambos bons exemplares da beleza humana, ou então a genética faz maravilhas impensáveis.

- Espero que não leve a mal que lhe interrompa a sua leitura! – disse eu, com uma voz que me pareceu trémula.

- De todo, Frank!... desculpe, ainda não tive oportunidade de saber o seu nome… - disse, erguendo os olhar.

Os telemóveis são capazes de injustiças atrozes, a voz que parecia melódica ao telefone é, na realidade, um canto magnífico, incrivelmente doce.

A conversa decorreu amena e ligeira, nada mal, se tivermos em conta que estas duas almas nunca antes se tinham visto com tanta proximidade. Há, até, a salientar que os títulos e a frieza da terceira pessoa foram rapidamente substituídos por uma comunicação mais informal. Perdão! A impaciência, a ânsia de chegar ao fim do que por aqui se conta, por vezes leva a que se ocultem acontecimentos relevantes. A conversa decorria amena e ligeira – é um facto – mas qual o meu espanto, quando ouço, vinda das minhas costas, uma voz antiga, uma voz que, com toda a certeza, não queria ouvir, não agora.

- Perdeste o telemóvel? – ouviu-se então, o que me fez olhar por cima do ombro.

Margarida acabara de entrar no único sítio onde não devia estar a esta hora, parece impossível a capacidade que tenho para originar este tipo de situações constrangedoras. Mas não correu da pior forma possível, Margarida não insistiu no pequeno número, que – tenho que o admitir francamente – desta vez não tinha sido ensaiado, até porque julgo ter sido uma surpresa encontrar-me ali. A conversa na minha mesa continuou, apesar de notar um traço de suspeita no olhar de Beatriz, traço esse que se acentuou ligeiramente quando na mesa de Margarida se sentou alguém. Alguém que só reconheci quando me levantei com o pretexto de ir à casa de banho - acto desnecessário e irreflectido - sabia perfeitamente quem era, a menos que o dia me tivesse reservado mais um momento inesperado.

Cinquenta e sete minutos passaram desde que entrei até que pedi a conta, dois minutos correram desde que a pedi até me despedi e sair dali, sem olhar para a mesa que, pelo parar acentuado das inspirações, notei ter-se concentrado nos meus passos seguros e, denunciadamente, rápidos.

As duas horas de viagem deixaram-me exausto, mas o cansaço é recompensado com o afluir de recordações de infância. Parece o paraíso, com a particularidade de ser um paraíso frio, bastante até para quem vem do clima mais ameno do litoral, mas ainda assim um sítio fantástico que, apesar do que há pouco foi dito ainda há pouco, não guarda só recordações da infância, mas também muitas outras histórias, não tão remotas na memória. Parei um pouco por ali, apreciei as mudanças que houve desde a última vez que cá vim, poucas foram, uma ou outra casa que começou a ser construída, mais outra que finalmente foi concluída e mais nada.

Finalmente! A casa está tal e qual a deixei, se foi assaltada há que abrir aqui um parêntesis para dignificar os ladrões deste país, pois duvido que haja, no resto do mundo, quem entre em casa alheia com o intuito de se apropriar do que não é seu, de forma tão ordeira. O sofá, das poucas coisas que a casa tem no seu interior, foi sem dúvida uma óptima companhia para a tarde. Dormi, longe de tudo, ou quase, Beatriz, por breves momentos, esteve por aqui, veio só desejar bom sono.

Pelo início da noite, o telefone volta a tocar… Desta vez atendi, com uma voz sonolenta proferi as palavras do costume, mas o que ouvi fez-me levantar de imediato, gelou-me de espanto. O convite para jantar, aqui, nesta cidade, a duas horas de viagem deixou-me petrificado, mas aceitei. Ás nove e meia, no restaurante onde costumo ir quando estou por cá.

 

O som cristalino do copo a estilhaçar-se, ao bater no ferro quente que protege a lareira. O doce e aveludado feixe vermelho de vinho que se derramou, com a maior subtileza que o momento permite, no soalho rústico. A roupa espalhada por toda a sala, arrancada e atirada por duas almas que nunca se haviam conhecido tão selvagens. A beleza dos corpos nus, a forma como estabelecem esta relação simbiótica é algo que por palavras não se explica, que não se descreve de forma tão intensa quanto merece, só visto, só sentido. Pela chaminé sai, agora, não só o fumo e o calor emanados pela lenha que arde, serena, ao seu recanto, mas também o calor que estes dois corpos, alvoroçados, não querem conter.

A chuva bate, gota a gota, na janela que separa dois mundos distintos. Lá fora, ouvem-se os cânticos próprios da época, ouve-se a respiração prolongada das pessoas, como defesa para com o frio, no interior a respiração também é demorada, mas, desta feita, provocada pelo esforço aliado às breves intermitências do contacto, aos impulsos de prazer. Impressionante, a beleza, a intensidade, a magnificência de um algo intrinsecamente ligado a estímulos de natureza animal. É impressionante, também, a violência com que os corpos, seduzindo-se mutuamente, se encontram e comungam, repetidamente, sem parar, nem mesmo ao passar da mesa para o sofá, do sofá para o chão ou para percorrer o chão, rastejando, juntos, até à proximidade da lareira.

Tudo isto acompanhado pelo vinho que agora escorria pelo chão, molhando as costas, ora de um, ora de outro, como pelas músicas de Diana Krall, a banda sonora do amor, quiçá da vida.

Mas não é de amor que se trata aqui, não é certamente isso que sinto por…

…Margarida!

Conhecer Beatriz (I)

(I)

 

Da janela que dá para as traseiras do prédio, via-se também o parque de estacionamento, onde acabara de parar um carro que nunca tinha sido visto por ali, dois minutos se passaram, e do seu interior saiu, espero não me estar a enganar, a nova vizinha. De cabelos escuros e ondulados, com um charme muito próprio e único, saiu do carro apressada, por causa da chuva miudinha que lhe caía na camisola alaranjada, fina, de Verão, e foi então que, numa atitude preenchida de ironia, me afastei do peitoril da janela e fui a correr para o computador, pouco tempo foi necessário para que toda a vizinhança pudesse ouvir o meu querido Frank Sinatra a cantar com toda a sua força e paixão I’m singing in the rain… Surpreendida pela cantoria, olhou para cima, como quem procura o último jogador das escondidas, e viu-me, então, rindo tranquilamente no peitoril da janela do terceiro esquerdo, sorriu! com as mãos agarrando a carteira sobre a cabeça, nada mais. Com isto, não esperando melhor reacção do que a quebra da primeira barreira do que trata a relações humanas, o primeiro contacto, passar de mero desconhecido a alguém que chama a atenção, ou que recorda alguma ocasião, por mais simples e corriqueira que possa ser considerada. Continuou a correr com cuidado para não escorregar no pavimento molhado, mas em bicos de pés, e a sua imagem parecia a de uma menina, que brincava no jardim e agora fugia do sistema de rega que se havia ligado sem prévio aviso. São dez da noite e ainda nem sequer jantei, perdi-me, sentado no sofá, nos meus pensamentos e a nova vizinha ocupou-me algum desse tempo, questiono-me sobre qual será a entrada e o número da porta que lhe protege o apartamento do mundo exterior, de todos os estranhos que por aí andam, à solta, nas suas vidas, naquilo a que se chama sociedade. Enfim, o estômago fez-me reencontrar, desta vez não há como enganá-lo e adiar o jantar, vou ter mesmo que me vestir sem grandes cuidados e correr para o café que há no rés-do-chão do prédio. Entrei no elevador, apertando ainda o último botão das calças, por sorte não fui surpreendido pela senhora do apartamento que faz paredes meias com o meu, com os seus oitenta e poucos anos assustar-se-ia com tal imagem, rogaria pragas à juventude dos tempos que correm e pediria perdão ao seu Senhor. Enfim, o elevador estava diferente, havia ali um aroma novo, suave, doce, não quis que me ocorresse aquilo que ocorreu, não queria pensar sequer no que estava a pensar, queria manter a putativa nova vizinha fora do meu pensamento, mas não o consegui evitar e, ao olhar-me no espelho do ascensor, deparei-me com um brilho incandescente nos olhos. Saí do prédio, olhando para os lados, à procura de novidades, mas nada, ninguém andava por ali, muito menos quem eu queria. O café fica dois passos ao lado da entrada para os apartamentos, entrei e fui recebido pelo sorriso da empregada, encoberta pelo balcão de metro e meio, mas foi, com uma tristeza que não consegui perceber na altura, mas que agora constato dever-se ao zelo que tem pelo meu bem-estar, que me disse já não haver o prato do dia, “Peco-lhe desculpa meu querido, não sabia que cá vinha hoje matar a fome, senão tinha-lhe guardado um pratinho de comida, mas preparo-lhe o que quiser num instantinho.”, disse, quase com carinho de mãe, ao que respondi que não se preocupasse, que preparasse um prego no prato reforçado e que estaria o assunto da melhor forma resolvido. Em quinze minutos veio o bendito prego, noutros quinze se foi. Corri para casa, como se tivesse montanhas de trabalho à espera, mas não, queria voltar para casa e esperar, esperar que aquela morena fizesse soar a campainha do meu modesto t zero dúplex e me atacasse, aos beijos, num acto louco e irreflectido, que tantos homens por aí fora fantasiam, mas a minha racionalidade chamava-me de trinta em trinta segundos à realidade. A porta do elevador abriu-se já no terceiro andar, sinceramente não sei como vim cá ter, não me lembro do percurso que fiz desde a porta, lá em baixo, talvez seja tudo uma questão de automatização deste tipo de procedimentos corriqueiros, afinal cerca de quatro quintos das decisões que tomamos são instintivas. Após quatro rotações completas da chave da porta de segurança e após sentir, de novo, o perfume de há pouco, ouvi um barulho estranho ao empurrar a porta para dentro, como se um papel se arrastasse no chão e eis o meu espanto quando olhei para baixo e vi uma folha meia dobrada por trás da porta. Baixei-me para o alcançar, na ânsia de descobrir o seu remetente.

Nem posso acreditar no que vejo! Beatriz Castro Lima acabara de estar à minha porta, acabara de tocar a minha campainha, e eu acabara de perder a oportunidade de ser atacado pela nova vizinha. O bilhete era curto e dizia: “Caro Frank, após analisar a disposição dos apartamentos e das respectivas janelas, penso que seja este o seu apartamento. Queria agradecer-lhe a hospitalidade e deixar em aberto a possibilidade de um novo encontro, acabei de me mudar para o segundo direito e espero poder reencontrá-lo. Até uma próxima vez, Beatriz Castro Lima”. Virei a folha e verifiquei que da página de trás constava o seu número de telemóvel, com uma nota de rodapé, “Não o costumo fazer, mas tenho uma certa paixão pela musica de Sinatra”.

Como seria de esperar, tal como mandam as normas - desculpe-se agora a importação transatlântica do termo - da paquera, não lhe telefonei nessa noite, porém fui para a cama com um sorriso que há muito não via no espelho, as horas passavam e a fada do sono não me vinha cantar canção alguma para me embalar, por momentos cheguei a pensar que se devesse a não ter feito absolutamente nada durante o dia todo, mas achei a ideia demasiadamente básica e contraditória a achar que o comando da televisão e o teclado do computador poderem ser bem mais cansativos que passar um dia inteiro de enxada na mão. Mas labouras à parte, eis que o sono finalmente chegou e as horas passaram sem que desse conta.

Daqui a três dias parto para uma pequena casa que tenho no norte do país, à qual, ironicamente, gosto de chamar casa do lago, e digo ironicamente, porque quase não é casa e o lago quase não tem água, mais parece uma pequena poça, se bem que a chamar-lhe poça, só se se tivesse formado durante um dilúvio, dado que tem profundidade suficiente para uma canoa, à qual fiz questão de dar uns retoques depois de a comprar ao filho de um pobre pescador que morrera poucos dias antes e deixara, além da canoa que tanto estimo, nada senão roupas velhas e um pequeno barraco onde guardava ferramentas que usava para trabalhar madeira, ainda fiquei com algumas peças, magnífica arte que tinha o homem, uma arte por explorar e que lhe podia ter enchido mais a algibeira do que os escassos peixes que pescava num riacho ali perto. Três dias faltam para sair desta cidade pequena, em que todos sabem de todos, em que nada passa indiferente aos olhos, nem impune ao julgamento das mentes, que por se acharem menos, são mais maliciosas que quaisquer outras. Digno de rei, seria hoje mesmo, depois do banho matinal e um pequeno almoço à inglesa, telefonar à minha querida Castro Lima e arranjar um motivo minimamente plausível para a enfiar no meu carro e levá-la para a minha humilde casa no lago, ou para parecer melhor, que isto no que toca a mulheres nunca se pode mostrar fraqueza em nada, então matérias financeiras muito menos, a minha bela cabana no campo, sim porque mais vale uma cabana avantajada no campo, e campo não falta por ali, do que um casebre desgraçado ao lado de um lago meio seco, perdido no meio de nenhures.